quinta-feira, 21 de maio de 2009

coragem...

Acordou com a música que ouviu quinhentas vezes em menos de uma semana naquele mês de junho. Acordou, na verdade, antes da música tocar, porque acordar antes do despertador é como uma competição, que todos os dias ela ganha. Ganha porque não se deixa ser surpreendida. É, acordou por vontade própria, e não por causa de um maldito despertador. E não deixou-se ouvir muito da música, já sabe a letra de cor mas ouvir é como voltar no tempo.
E ficou pensando, sentada no vaso, como todos os pensadores-de-vaso matinais devem fazer- e provavelmente, todas as grandes idéias devem sair de lá, e todas as pequenas também, e todas as sem fundamento, e todos os pensamentos loucos e sem sentido. E pensou. Era tão certo. Sabia o que era ser feliz lembrando a sensação de dirigir o carro ouvindo aquela música que tocou por tantas vezes às 11 da noite e às 5 da manhã nas voltas para casa. E se estava sozinha com certeza era melhor, dava para repetir no caminho por mais 2 vezes a mesma música, sem ninguém para reclamar em como gosta de ouvir a mesma música varias vezes.
É , eu gosto do exagero. Vocês que ficam no meio termo, no não esgotamento das coisas, vocês não sabem qual o êxtase de fazer -se tudo até a última gota de vontade dar lugar ao esgotamento.
Era feliz porque sabia que alguém esperava, ansioso a sua vinda. Mas era feliz também porque mesmo que não esperasse, ela iria de qualquer forma. Era feliz porque descobriu que aquilo era o que gostava de fazer, aqueles eram os que ela escolheu para estar, e aquele era o lugar definitivo que ela, extasiada, iria esgotar-se de ir até o momento em que ela não mais quisesse.
E esta é a delícia de ser quem se é.
Era feliz porque a noite iria terminar numa cama, aos sussurros bêbados de amantes ainda não declarados. Iria terminar a noite indo pra casa com vontade de ter mais no dia seguinte. E no dia seguinte, podia optar por não ter, mas o lugar, as pessoas, ainda estariam lá.
E que mal haveria em se ter isso para sempre... meu deus, que mal há em querer este pequeno mundo, regado à pessoas que não querem nada da vida, só um pouquinho, em poucas horas de sua semana... ?
Depois a vida volta à sua normalidade. E ela esta em um lugar que não escolheu,com pessoas que não escolheu, fazendo algo que também não é sua escolha, para matar o tempo até saber qual será, afinal, a sua escolha.
Tem dias que ela não pensa em se casar ou ter filhos. Não quer dividir a cama por dias seguidos com ninguém. Na verdade, ela não quer crescer, nem ter sonhos de gente grande. Ela quer ter finais de semana de risada, insandecidos, sem preocupação, com gente que não quer nada mesmo e que a conhece e não exige respostas.
Na verdade, ela não quer crescer.
10 minutos. É o tempo que leva para pensar, sozinha e com todas as caretas que ela pode fazer sem ninguém ali para julgar. 10 minutos, para se dar ao luxo de admitir que ela adoraria mandar tudo às favas, esquecer que ela tem um coração mole, e partir para outra. E continuar ouvindo aquela música, voltando para casa às 5 da manhã, sozinha.
Mas a música acaba. E , com exceção desse cd, o resto é a trilha sonora de toda a continuação- porque toda história tem uma continuação.
Ela não tem, coragem. É , ela não, tem coragem. O amor faz essas coisas.

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