sexta-feira, 1 de outubro de 2010

joana

 Joana estava à dispor dos momentos. À dispor para amigos, para saídas sem rumo durante a noite, conversas com sentido existencialista, ou papo de bar. Era a liberdade respirando novamente num corpo quente para toda a novidade. Era puramente liberdade.
 Era sozinha e tão sempre acompanhada. Sozinha por dentro, sabia o que queria, e tantas possibilidades, e a vingança contra os contratempos volta e meia era pensada e repensada, saboreou cada momento como se fosse único- ser sozinha era muito mais do que ter encontrado o amor da vida inteira.
 Mas o fraco sempre foi a paixão sorrateira. Paixão de 1 mês, paixão de vida inteira, não importava, tinha um fraco por paixões. Não era pensado que teria uma paixão novamente, não tão cedo, não por toda a prisão em que esteve. Mas não se escolhe quando e por quem vai se ter uma paixão, e tratando-se de Joana que estava quente para tanta novidade, paixão fazia parte.
 Não se esperava durar muito. E quando passou a durar, não se esperava gostar tanto, e quando passou a se gostar, não queria amar tanto.
 E não amava, era a diversão de possibilidades que ela estava apaixonada. Uma mulher pode ter desamores aos mil, e jurar com uma alma já mordida que não vai amar nunca mais ninguém nesta vida, mas são elas  as mulheres mais felizes de todas as outras, de tantas outras  que não de dispõe totalmente às paixões. Joana dilacerou seu coração e chorou em cada pedaço.
 Quando viu estava à dispor. De tudo, dos ciúmes, da cama, dos costumes, dos pedidos. E foi assim se deixando prender, ela que estava à dispor da vida agora negando com profundo amargor toda a liberdade que lhe foi consentida depois do inferno dos meses anteriores.
 É que Joana achou que não podia ser completa se não tivesse o amor de quem queria, e por um tempo, longo tempo, morreu em tristes tardes de Sábados inteiros. Sábado era o pior dia, e quando chovia, ela sentia que escorria para longe de um presente que não queria mais estar.
 Foi difícil se convencer e quando conseguiu chover junto com a chuva, viu que era completa.
 E agora ela que tanto estava liberta, estava à dispor de alguém que julgou ser merecedor do seu amor desenfreado. Mas, até no amor, como Clarice diz, somos burgueses. Amor demais, ninguém sabe receber.
 E quem disse que queria dar amor demais, ela estava era tentando ter o gosto da paixão de volta, pois é mulher de todas as paixões e não escrava de amores acabados.
 E foi assim que as coisas fizeram sentido para ela.
 Foi se afastando tanto, o tal do grande merecedor das suas dores, afastando tanto, que não deixou mais a saudade.
 A saudade foi virando contentamento, e finalmente, ela percebeu que poderia ir embora.

 As paixões também apagam o dispor ao mundo. Mas o mundo espera . Te aguarda que Joana já sabe chorar e já sabe sorrir outra vez.

Um comentário:

lila disse...

Ótimo texto Vi! ;)